Expectativa e ação, da potência ao ato

Desde 1985 o Brasil vive sob estado de direito, o mais longo período de nossa história. Neste tempo as instituições suportaram duros testes: da doença à véspera da posse (e morte um mês depois) do principal artífice da redemocratização e presidente eleito, com arriscada substituição pelo vice da chapa, até as atuais agruras políticas e econômicas; no meio do caminho foi preciso vencer hiperinflação, crises da dívida externa, processos de impeachment que apearam do poder dois presidentes da República.

Tudo isso ocorreu sem desastres institucionais, malgrado grupelhos saudosos do autoritarismo valham-se da própria liberdade para negá-la. É assim mesmo: o exercício democrático implica viver perigosamente. Como dizia Winston Churchill, “A democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as outras”.

As mais de três décadas democráticas são gratificantes, porém nada está resolvido. Há que perseverar no aperfeiçoamento institucional, prevenir retrocessos. O tribuno baiano Otávio Mangabeira alertou, meados do século XX: “A democracia é uma plantinha tenra que deve ser regada todos os dias.”

Neste justo momento precisamos cuidar extremosamente de nossa ‘plantinha’. Não que as instituições pareçam em risco, elas têm resistido a sucessivos embates. No entanto há que prevenir arranhões; mesmo superficiais, se repetidos podem vulnerar o tecido social, infeccionar e comprometer o organismo.

Conjeturas como essas haverão de frequentar-nos as mentes, neste momento. Ao passar do pensamento à ação, cada qual deve cuidar de seu espaço, centrar-se no que lhe está ao alcance para servir ao ideal coletivo.

É o que temos tentado, nestes tempos difíceis também em Brasília: o Legislativo distrital quer superar os problemas abrindo-se ao escrutínio popular e chamando a sociedade a participar; além de coerência democrática, a aproximação entre representados e representantes é auxílio precioso no aperfeiçoamento dos meios e modos de fazer política.

Volto à imagem de Mangabeira e acrescento-lhe, em sentido inverso, um velho dito popular: há que enxergar a floresta e protegê-la no cuidado de cada árvore, arbusto, ramagem.

Se a decisão de agir é individual, a ação concreta pressupõe cooperar, atrair e harmonizar em vez de excluir e combater; recusar maniqueísmos, compreender que há visões diferentes de certo ou errado, do bem e do mal e a ninguém é dado decretar único o próprio enfoque.

Precisamos também superar um vezo antigo, o de acreditar que os problemas resolver-se-ão por obra e graça de nosso potencial.

De fato temos um grande espaço territorial e nele felizes conjunções: fartas riquezas do subsolo em áreas que facilitam a extração, solos férteis sob condições climáticas favoráveis. A enorme população é homogênea em sua rica diversidade, unifica-se pelo idioma, cultura, práticas alimentares, demais usos e costumes.

Sem falar nas vantagens resultantes da peculiar miscigenação, como ensinam Gilberto Freyre, Fernando Azevedo, Darcy Ribeiro – e aqui faço uma rápida digressão.

Nossa história produziu improvável amálgama entre os três povos formadores da nacionalidade. Os primitivos habitantes eram soberanos nesta Pindorama quando o colonizador europeu invadiu-a e tentou escravizá-los; não o conseguindo, foi buscar mão-de-obra na África então escravista – e assim um dos povos originários foi compelido a participar. Tal processo tinha tudo para dar errado, perder-se em guerra e sangue, mas resulta em razoável harmonia.

Mesmo longe da sonhada ‘democracia racial’, construímos povo e nação admiravelmente ‘coloridos’; somos mulatos, brancos, pretos, pardos e gostamos muito disto. Até comprovamos no exemplo concreto o que a teoria científica estabelece: os humanos somos essencialmente iguais, pouco importam as diferenças epidérmicas entre etnias.

Retomo o fio da meada: talvez por esperar demais deste berço esplêndido, em decisivos pontos de inflexão perdemos o passo da história, ficamos aquém de nações de trajetória análoga.

A reverter este destino precisamos, todos e cada um, ultrapassar a condição de expectantes – da expectativa de que alguém realize – e assumir atitude proativa, a do fazer consequente e cooperativo. Vislumbrar o futuro, superar o insatisfatório presente sem desmerecer o passado, antes nele reconhecer as conquistas, inspiração para avançar mais.

Joe Valle,

presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal

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